Não estava cansado da rotina incessante, do casamento frustrado, das reviravoltas de uma vida que tinha um certo gosto pela desgraça. Não estava esgotado pelo dia cansativo de trabalho, pelos problemas que insistiam em se aglomerar de forma desorganizada em sua cabeça, e nem pelo engarrafamento agora tão constante pelo emergir dessa cidade até então pequena.
Não, ele não estava cansado pelos fatos ou suspeitas...
Estava cansado dessa vida que sempre fez dele uma vítima, do descaso do destino com essa alma tão humilde, e cansado de tentar entender por que a felicidade já não batera a porta. Estava esgotado, exaurido, acabado, e foi assim que ele disse em duas palavras - como quem só precisava ser compreendido- a frustração entrelinhas de um antigo sonhador.
Disse apenas porque pensou alto, e só o fez porque em seus pensamentos adormecidos já existia um alguém que não queria mais lutar, mas pedia com a mesma bravura de quem empunha uma espada, para que chegasse ao fim essa batalha de tantos anos.
"Estou cansado!" - Foi exatamente o que ele falou, e certamente não o que ele quis dizer.
Estava cansado, na essência, na raiz de uma vida nada generosa.
Você escreve tão efetivamente bem...! Parece encontrar as palavras ideais para concretizar a 'imagem' do texto! Ótimo ler!
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