domingo, 5 de julho de 2009

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Toda a imensidão que se aloja lá fora grita meu nome, posso ouvir o barulho do vento que bate em minha porta, zunindo em desespero por minha presença. Encantando todo o ambiente, que para a minha aflição, não descansa, não dá trégua, e continua conturbando tudo aquilo que deveria estar apenas quieto, impedindo que aconteça naturalmente, impedindo que eu permaneça no meu ciclo.

Lá fora o mundo grita, e todos os fantasmas da minha mente pressionam-se contra o portão, provocando um estardalhaço tamanho que não se pode raciocinar. Eu não posso ouvir os meus pensamentos, e pressiono os meus dedos por instinto, pois já é do meu ser, e por isso que não descanso, eu canto.

Mais uma batida, mais um leve exaltar cansado do meu corpo, que por muito tempo se mostrou surpreso, mas por agora já não se surpreende, porque já está farto de uma situação inadequada para o seu bom senso. Meu corpo está cansado, meus dedos não param, não param.

Já se tornou uma breve rotina, e o vazio do ambiente faz entender nas entrelinhas que mesmo que insistente, enfadonho e inconveniente, nada vai parar. Entorpecido pela situação, eu me tento a olhar brevemente para algo que esteja mais longe do que as minhas próprias mãos, passando rapidamente os meus olhos pela sala, pelo quarto, pela imensidão do âmbito noturno. Eu estou enlouquecendo, e posso sentir cada parte da minha sobriedade indo embora, esvaindo-se do meu corpo feito água, feito ar.

Não tenho mais forças para evitar, na verdade, eu joguei a toalha e estou apenas esperando que aconteça. Porque não é apenas o fato de existir, eles querem que eu perca a linha. Projetando-me em um plano longe do racional – aonde jamais irei existirei -, que por ventura não me agrada.

Mais uma batida lá fora, uma batida apenas para acentuar o fato de que estou arrependido de existir neste momento. Eu poderia ter ido, eu poderia ter me colocado para fora, mas, entretanto eu me deixei caí nas armadilhas destes infames. Eu já nem sei por que estou escrevendo, nada faz mais sentido. Um sorriso estampado no rosto, o coração em pura disritmia, o meu corpo entorpecido a lutar, nada mais é racional.

Sinto minha cabeça em 360°, meu corpo já não existe mais, leve feito pena, flutuando sem direção alguma pelo ar desta casa, deste palácio, deste lago obscuro e inabitado (frio feito mármore, frio feito mármore!). É que de repente eu posso tocar tudo, eu tenho tudo, eu sou tudo. E há um homem parado em minha porta, exibindo um sorriso vitorioso, que transborda mistério, o homem de preto, o sorriso impiedoso, quem sou? Onde estou?
Há uma rua, uma metrópole, carros, pessoas, barulho. O quê eu faço aqui? Olho em curiosidade pela rua, vagando ligeiramente, e de repente um grande impulso. Um prédio, o vento, o homem sussurrando em meu ouvido, minhas roupas, meu corpo, minha mente soa confusão.
Eu posso voar, e me jogo do prédio, me vejo cair, indo de encontro ao piso, e mais uma vez tudo muda, um lago, um lago frio e inóspito. Estou dentro dele, envolto pela manta negra e solitária, me deixando levar pela única leve correnteza, eu posso respirar, eu posso falar. EU GRITO! Não ouço, há um homem, um sorriso, e eu não posso me ouvir.

Está escuro, frio, e eu continuo a gritar.
Ninguém pode me ouvir, meus dedos, meus olhos, o homem.

Quem sou eu? Onde estou? Mais um leve impulso.
Eu já deixei de existir.



[...]

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